13 de março de 2026

Riscos Psicossociais no Trabalho e a ISO 45003: Um Novo Desafio para a Segurança e Saúde

Nos últimos anos, as organizações passaram a olhar com mais atenção para fatores que vão além dos riscos físicos, químicos ou ergonômicos tradicionais. Entre eles, destacam-se os riscos psicossociais, que envolvem aspectos da organização do trabalho, das relações interpessoais e das condições psicológicas que podem afetar a saúde e o bem-estar dos trabalhadores.

Esse tema ganhou ainda mais relevância no Brasil com a atualização da NR 01 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, que estabelece a obrigatoriedade de incluir os riscos psicossociais no processo de avaliação e gestão de riscos ocupacionais a partir de 2025. A mudança representa um marco importante para a área de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), exigindo que empresas e profissionais ampliem sua visão sobre prevenção e gestão de riscos.

Além disso, a discussão internacional sobre o tema tem se consolidado com a ISO 45003:2021, norma que apresenta diretrizes para a gestão da saúde e segurança psicológica no trabalho, complementando o sistema de gestão de SST baseado na ISO 45001.

Como então organizações e trabalhadores serão impactados com o surgimento da nova norma e o aprofundamento das discussões sobre riscos psicossociais, de modo a promover um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo?

O que são riscos psicossociais?

Os riscos psicossociais podem ser definidos como a combinação entre a probabilidade de exposição a fatores psicossociais relacionados ao trabalho e a severidade das consequências que esses fatores podem gerar à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores .

Esses riscos estão associados principalmente a três dimensões:

  1. Organização do trabalho
    Inclui carga de trabalho excessiva, falta de autonomia, ambiguidade de papéis, jornadas prolongadas ou ritmo intenso de trabalho.

  2. Fatores sociais no ambiente de trabalho
    Abrange conflitos interpessoais, assédio moral, violência, falta de reconhecimento, liderança inadequada ou ausência de apoio organizacional.

  3. Ambiente e condições de trabalho
    Envolve ambientes estressantes, recursos inadequados para execução das tarefas ou exposição constante a situações de pressão e risco.


Quando não são gerenciados adequadamente, esses fatores podem contribuir para diversos problemas, como ansiedade, depressão, distúrbios do sono, doenças cardiovasculares e redução da satisfação e do engajamento no trabalho.

A atualização da NR 01 e a inclusão dos riscos psicossociais

A atualização da NR 01 representa uma mudança significativa no cenário da SST no Brasil. A norma estabelece o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) como abordagem central para prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.

Com a nova orientação, as organizações deverão identificar, avaliar e controlar também os riscos psicossociais, integrando-os ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso significa que fatores como estresse ocupacional, excesso de demandas, conflitos organizacionais e condições de trabalho que afetam a saúde mental devem ser considerados em todas as etapas do processo de gestão de riscos.

Essa exigência reforça que a saúde do trabalhador deve ser compreendida de forma integral, envolvendo não apenas aspectos físicos, mas também psicológicos e sociais.

O papel da ISO 45003 na gestão da saúde psicológica

A ISO 45003 surge como uma importante referência para orientar as organizações na gestão dos riscos psicossociais. Publicada como complemento à ISO 45001, a norma fornece diretrizes para promover ambientes de trabalho psicologicamente seguros e saudáveis, integrando a saúde mental ao sistema de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho.

Segundo o documento, a gestão desses riscos deve fazer parte do sistema de gestão de SST e estar alinhada às atividades e processos da organização. O objetivo é prevenir agravos à saúde relacionados ao trabalho e promover o bem-estar dos trabalhadores.

Um de seus pontos centrais é reconhecer que os riscos psicossociais podem surgir de diversas fontes, como a organização do trabalho, as relações sociais no ambiente corporativo e as condições de trabalho. Esses fatores podem interagir entre si e também com outros riscos ocupacionais, ampliando seus impactos sobre a saúde e o desempenho dos trabalhadores.

Nesse sentido, a ISO 45003 orienta que a gestão desses riscos seja tratada de forma sistemática e integrada ao sistema de gestão de SST, com participação ativa da liderança e dos trabalhadores.

Entre os principais princípios abordados pela norma estão:

  • liderança e comprometimento da alta direção;

  • participação ativa dos trabalhadores;

  • identificação contínua de perigos psicossociais;

  • avaliação e tratamento sistemático dos riscos;

  • monitoramento e melhoria contínua do ambiente de trabalho.

A norma também destaca que a gestão adequada desses riscos pode gerar benefícios organizacionais relevantes, como maior engajamento dos trabalhadores, aumento da produtividade e fortalecimento da sustentabilidade organizacional.

A relação com a gestão de riscos segundo a ISO 31000

A gestão de riscos psicossociais pode ser compreendida dentro de uma abordagem mais ampla de gestão de riscos organizacionais, conforme proposto pela norma ISO 31000: 2018.

De acordo com essa norma, risco é definido como o efeito da incerteza nos objetivos, podendo gerar consequências positivas ou negativas para a organização .

Nesse contexto, o processo de gestão de riscos envolve um processo estruturado que inclui:

  • identificação de riscos;

  • análise e avaliação;

  • tratamento e controle;

  • monitoramento e análise crítica.

A ISO 31000 também enfatiza que a gestão de riscos deve considerar fatores humanos e culturais, reconhecendo que o comportamento das pessoas e a cultura organizacional influenciam diretamente os resultados desse processo.

Isso reforça a importância de integrar a gestão dos riscos psicossociais às estratégias organizacionais e aos sistemas de governança.

Como os profissionais de SST podem lidar com esses riscos?

Para os profissionais da área de Segurança e Saúde no Trabalho, a ISO 45003 pode servir como um guia para estruturar ações preventivas voltadas à saúde mental no trabalho. A seguir, são apresentados alguns exemplos práticos de como essa abordagem pode ser aplicada nas organizações.

1. Identificação de fatores psicossociais no ambiente de trabalho

O primeiro passo para lidar com riscos psicossociais é identificá-los. Diferentemente de riscos físicos ou químicos, esses fatores muitas vezes estão relacionados à organização do trabalho ou às relações interpessoais.

Algumas situações comuns incluem:

  • sobrecarga de trabalho ou prazos irrealistas;

  • ambiguidade de papéis e responsabilidades;

  • conflitos entre equipes ou liderança inadequada;

  • falta de reconhecimento ou apoio organizacional;

  • exposição frequente a situações emocionalmente desgastantes.

Os profissionais de SST podem utilizar diversas ferramentas para identificar esses fatores, como:

  • pesquisas de clima organizacional;

  • entrevistas ou grupos de discussão com trabalhadores;

  • análise de indicadores de absenteísmo e rotatividade;

  • avaliação de cargas de trabalho e jornadas.


Por exemplo, se uma empresa observa aumento de afastamentos por estresse em determinado setor, o profissional de SST pode investigar se há excesso de demandas, falta de recursos ou problemas de comunicação entre líderes e equipes.

2. Avaliação dos riscos psicossociais


Após identificar os perigos psicossociais, é necessário avaliar os riscos associados a eles. Essa avaliação envolve analisar a probabilidade de ocorrência e a gravidade das consequências na saúde dos trabalhadores.

Uma equipe de SST pode, por exemplo, avaliar:

  • frequência de conflitos entre equipes;

  • volume de trabalho em determinados períodos;

  • níveis de pressão por metas ou produtividade.

Em uma central de atendimento ao cliente, por exemplo, pode existir forte pressão por tempo de resposta e metas de produtividade. Caso essas exigências sejam excessivas, elas podem aumentar os níveis de estresse e reduzir a satisfação no trabalho.

Nesse caso, a avaliação do risco pode indicar a necessidade de revisar metas, redistribuir tarefas ou melhorar o suporte aos trabalhadores.

3. Implementação de medidas de controle


Assim como ocorre com outros riscos ocupacionais, os riscos psicossociais devem ser tratados por meio de medidas de controle.

Algumas estratégias incluem:

Redesenho do trabalho

Uma das formas mais eficazes de prevenir riscos psicossociais é revisar a organização do trabalho. Isso pode incluir:

  • ajuste da carga de trabalho;

  • definição clara de responsabilidades;

  • maior autonomia na execução das tarefas.

Por exemplo, em setores com jornadas prolongadas, a empresa pode adotar escalas mais equilibradas ou pausas adequadas.

Capacitação de lideranças

A liderança tem papel fundamental na criação de ambientes de trabalho saudáveis. Treinamentos para gestores podem abordar temas como:

  • comunicação eficaz;

  • gestão de conflitos;

  • reconhecimento e feedback construtivo.

Líderes preparados conseguem identificar sinais precoces de estresse ou insatisfação na equipe e agir preventivamente.

Canais de apoio e escuta

Criar canais seguros para que trabalhadores possam relatar problemas ou dificuldades também é uma prática recomendada.

Isso pode incluir:

  • programas de apoio psicológico;

  • canais confidenciais de denúncia de assédio;

  • acompanhamento por equipes de saúde ocupacional.

Essas iniciativas ajudam a reduzir o estigma relacionado à saúde mental e incentivam a busca por apoio.

4. Monitoramento de indicadores de saúde organizacional

A gestão de riscos psicossociais não termina com a implementação das medidas de controle. É essencial monitorar continuamente os resultados.

Entre os indicadores que podem ser acompanhados estão:

  • taxas de absenteísmo;

  • rotatividade de pessoal;

  • afastamentos por doenças relacionadas ao estresse;

  • resultados de pesquisas de satisfação dos trabalhadores.

Se esses indicadores apresentarem piora ao longo do tempo, isso pode indicar a necessidade de revisar as estratégias adotadas.

5. Envolvimento dos trabalhadores no processo de gestão de riscos

A participação dos funcionários é um elemento fundamental para o sucesso da gestão de riscos psicossociais.

A ISO 45003 destaca que a consulta e o envolvimento dos trabalhadores ajudam a melhorar a eficácia das ações de prevenção e a promover ambientes de trabalho mais saudáveis.


Na prática, isso pode ocorrer por meio de:

  • comitês de saúde e segurança;

  • grupos de melhoria contínua;

  • reuniões periódicas para discussão de problemas organizacionais.

Quando os trabalhadores participam das decisões que afetam seu trabalho, tendem a apresentar maior motivação, engajamento e comprometimento com a organização.

Benefícios para as organizações

A gestão adequada dos riscos psicossociais não traz apenas benefícios aos trabalhadores. Ela também contribui para melhorar o desempenho organizacional.

Ambientes de trabalho saudáveis tendem a apresentar:

  • maior comprometimento com a cultura da organização;

  • aumento da produtividade;

  • redução de afastamentos e custos com saúde;

  • melhoria da inovação e da sustentabilidade organizacional.

Nesse sentido, cuidar da saúde mental no trabalho deixa de ser apenas uma obrigação legal e passa a ser uma estratégia para fortalecer a competitividade e a sustentabilidade das organizações.

Considerações finais

A inclusão dos riscos psicossociais na gestão de segurança e saúde ocupacional representa uma evolução importante nas práticas de prevenção no trabalho. A atualização da NR 01, aliada às diretrizes da ISO 45003 e à abordagem estruturada da ISO 31000, reforçam a necessidade de integrar a saúde mental ao processo de gestão de riscos.

Para os profissionais de SST, é importante ampliar o olhar sobre o ambiente de trabalho, considerando não apenas fatores físicos, mas também aspectos organizacionais e sociais que influenciam o bem-estar dos trabalhadores.

Mais do que uma exigência normativa, a gestão dos riscos psicossociais representa uma oportunidade para construir ambientes de trabalho mais saudáveis, produtivos e sustentáveis.

A ISO 45003 no Brasil

A versão em português da norma deverá ser publicada pela ABNT no final deste mês ou no início de abril. Para os nossos leitores terem uma ideia preliminar do documento, apresentamos a seguir a pré-visualização da futura NBR ISO 45003:2026. 


Para facilitar a leitura, clique no botão "full screen" do visualizador.

AGUARDE, EM BREVE: Assistente de IA para Avaliação de Riscos Psicossociais, exclusivo do QSP, treinado na NR-01, nas normas ISO 45003, ISO 45001, ISO 31000 e ISO/IEC 31010, e em outros documentos internos do nosso Centro!