Nos últimos anos, as organizações passaram a olhar com mais atenção para fatores que vão além dos riscos físicos, químicos ou ergonômicos tradicionais. Entre eles, destacam-se os riscos psicossociais, que envolvem aspectos da organização do trabalho, das relações interpessoais e das condições psicológicas que podem afetar a saúde e o bem-estar dos trabalhadores.
Esse tema ganhou ainda mais relevância no Brasil com a atualização da NR 01 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, que estabelece a obrigatoriedade de incluir os riscos psicossociais no processo de avaliação e gestão de riscos ocupacionais a partir de 2025. A mudança representa um marco importante para a área de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), exigindo que empresas e profissionais ampliem sua visão sobre prevenção e gestão de riscos.
Além disso, a discussão internacional sobre o tema tem se consolidado com a ISO 45003:2021, norma que apresenta diretrizes para a gestão da saúde e segurança psicológica no trabalho, complementando o sistema de gestão de SST baseado na ISO 45001.
Como então organizações e trabalhadores serão impactados com o surgimento da nova norma e o aprofundamento das discussões sobre riscos psicossociais, de modo a promover um ambiente de trabalho mais saudável e produtivo?
O que são riscos psicossociais?
Os riscos psicossociais podem ser definidos como a combinação entre a probabilidade de exposição a fatores psicossociais relacionados ao trabalho e a severidade das consequências que esses fatores podem gerar à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores .
Esses riscos estão associados principalmente a três dimensões:
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Organização do trabalho
Inclui carga de trabalho excessiva, falta de autonomia, ambiguidade de papéis, jornadas prolongadas ou ritmo intenso de trabalho. -
Fatores sociais no ambiente de trabalho
Abrange conflitos interpessoais, assédio moral, violência, falta de reconhecimento, liderança inadequada ou ausência de apoio organizacional. -
Ambiente e condições de trabalho
Envolve ambientes estressantes, recursos inadequados para execução das tarefas ou exposição constante a situações de pressão e risco.
Quando não são gerenciados adequadamente, esses fatores podem contribuir para diversos problemas, como ansiedade, depressão, distúrbios do sono, doenças cardiovasculares e redução da satisfação e do engajamento no trabalho.
A atualização da NR 01 e a inclusão dos riscos psicossociais
A atualização da NR 01 representa uma mudança significativa no cenário da SST no Brasil. A norma estabelece o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) como abordagem central para prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.
Com a nova orientação, as organizações deverão identificar, avaliar e controlar também os riscos psicossociais, integrando-os ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso significa que fatores como estresse ocupacional, excesso de demandas, conflitos organizacionais e condições de trabalho que afetam a saúde mental devem ser considerados em todas as etapas do processo de gestão de riscos.
Essa exigência reforça que a saúde do trabalhador deve ser compreendida de forma integral, envolvendo não apenas aspectos físicos, mas também psicológicos e sociais.
O papel da ISO 45003 na gestão da saúde psicológica
A ISO 45003 surge como uma importante referência para orientar as organizações na gestão dos riscos psicossociais. Publicada como complemento à ISO 45001, a norma fornece diretrizes para promover ambientes de trabalho psicologicamente seguros e saudáveis, integrando a saúde mental ao sistema de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho.
Segundo o documento, a gestão desses riscos deve fazer parte do sistema de gestão de SST e estar alinhada às atividades e processos da organização. O objetivo é prevenir agravos à saúde relacionados ao trabalho e promover o bem-estar dos trabalhadores.
Um de seus pontos centrais é reconhecer que os riscos psicossociais podem surgir de diversas fontes, como a organização do trabalho, as relações sociais no ambiente corporativo e as condições de trabalho. Esses fatores podem interagir entre si e também com outros riscos ocupacionais, ampliando seus impactos sobre a saúde e o desempenho dos trabalhadores.
Nesse sentido, a ISO 45003 orienta que a gestão desses riscos seja tratada de forma sistemática e integrada ao sistema de gestão de SST, com participação ativa da liderança e dos trabalhadores.
Entre os principais princípios abordados pela norma estão:
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liderança e comprometimento da alta direção;
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participação ativa dos trabalhadores;
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identificação contínua de perigos psicossociais;
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avaliação e tratamento sistemático dos riscos;
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monitoramento e melhoria contínua do ambiente de trabalho.
A norma também destaca que a gestão adequada desses riscos pode gerar benefícios organizacionais relevantes, como maior engajamento dos trabalhadores, aumento da produtividade e fortalecimento da sustentabilidade organizacional.
A relação com a gestão de riscos segundo a ISO 31000
A gestão de riscos psicossociais pode ser compreendida dentro de uma abordagem mais ampla de gestão de riscos organizacionais, conforme proposto pela norma ISO 31000: 2018.
De acordo com essa norma, risco é definido como o efeito da incerteza nos objetivos, podendo gerar consequências positivas ou negativas para a organização .
Nesse contexto, o processo de gestão de riscos envolve um processo estruturado que inclui:
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identificação de riscos;
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análise e avaliação;
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tratamento e controle;
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monitoramento e análise crítica.
A ISO 31000 também enfatiza que a gestão de riscos deve considerar fatores humanos e culturais, reconhecendo que o comportamento das pessoas e a cultura organizacional influenciam diretamente os resultados desse processo.
Isso reforça a importância de integrar a gestão dos riscos psicossociais às estratégias organizacionais e aos sistemas de governança.
Como os profissionais de SST podem lidar com esses riscos?
Para os profissionais da área de Segurança e Saúde no Trabalho, a ISO 45003 pode servir como um guia para estruturar ações preventivas voltadas à saúde mental no trabalho. A seguir, são apresentados alguns exemplos práticos de como essa abordagem pode ser aplicada nas organizações.
1. Identificação de fatores psicossociais no ambiente de trabalho
O primeiro passo para lidar com riscos psicossociais é identificá-los. Diferentemente de riscos físicos ou químicos, esses fatores muitas vezes estão relacionados à organização do trabalho ou às relações interpessoais.
Algumas situações comuns incluem:
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sobrecarga de trabalho ou prazos irrealistas;
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ambiguidade de papéis e responsabilidades;
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conflitos entre equipes ou liderança inadequada;
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falta de reconhecimento ou apoio organizacional;
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exposição frequente a situações emocionalmente desgastantes.
Os profissionais de SST podem utilizar diversas ferramentas para identificar esses fatores, como:
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pesquisas de clima organizacional;
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entrevistas ou grupos de discussão com trabalhadores;
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análise de indicadores de absenteísmo e rotatividade;
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avaliação de cargas de trabalho e jornadas.
2. Avaliação dos riscos psicossociais
Uma equipe de SST pode, por exemplo, avaliar:
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frequência de conflitos entre equipes;
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volume de trabalho em determinados períodos;
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níveis de pressão por metas ou produtividade.
Em uma central de atendimento ao cliente, por exemplo, pode existir forte pressão por tempo de resposta e metas de produtividade. Caso essas exigências sejam excessivas, elas podem aumentar os níveis de estresse e reduzir a satisfação no trabalho.
Nesse caso, a avaliação do risco pode indicar a necessidade de revisar metas, redistribuir tarefas ou melhorar o suporte aos trabalhadores.
3. Implementação de medidas de controle
Algumas estratégias incluem:
Uma das formas mais eficazes de prevenir riscos psicossociais é revisar a organização do trabalho. Isso pode incluir:
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ajuste da carga de trabalho;
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definição clara de responsabilidades;
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maior autonomia na execução das tarefas.
Capacitação de lideranças
A liderança tem papel fundamental na criação de ambientes de trabalho saudáveis. Treinamentos para gestores podem abordar temas como:
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comunicação eficaz;
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gestão de conflitos;
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reconhecimento e feedback construtivo.
Líderes preparados conseguem identificar sinais precoces de estresse ou insatisfação na equipe e agir preventivamente.
Canais de apoio e escuta
Criar canais seguros para que trabalhadores possam relatar problemas ou dificuldades também é uma prática recomendada.
Isso pode incluir:
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programas de apoio psicológico;
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canais confidenciais de denúncia de assédio;
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acompanhamento por equipes de saúde ocupacional.
Essas iniciativas ajudam a reduzir o estigma relacionado à saúde mental e incentivam a busca por apoio.
4. Monitoramento de indicadores de saúde organizacional
A gestão de riscos psicossociais não termina com a implementação das medidas de controle. É essencial monitorar continuamente os resultados.
Entre os indicadores que podem ser acompanhados estão:
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taxas de absenteísmo;
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rotatividade de pessoal;
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afastamentos por doenças relacionadas ao estresse;
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resultados de pesquisas de satisfação dos trabalhadores.
Se esses indicadores apresentarem piora ao longo do tempo, isso pode indicar a necessidade de revisar as estratégias adotadas.
5. Envolvimento dos trabalhadores no processo de gestão de riscos
A participação dos funcionários é um elemento fundamental para o sucesso da gestão de riscos psicossociais.
A ISO 45003 destaca que a consulta e o envolvimento dos trabalhadores ajudam a melhorar a eficácia das ações de prevenção e a promover ambientes de trabalho mais saudáveis.
Na prática, isso pode ocorrer por meio de:
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comitês de saúde e segurança;
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grupos de melhoria contínua;
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reuniões periódicas para discussão de problemas organizacionais.
Quando os trabalhadores participam das decisões que afetam seu trabalho, tendem a apresentar maior motivação, engajamento e comprometimento com a organização.
Benefícios para as organizações
A gestão adequada dos riscos psicossociais não traz apenas benefícios aos trabalhadores. Ela também contribui para melhorar o desempenho organizacional.
Ambientes de trabalho saudáveis tendem a apresentar:
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maior comprometimento com a cultura da organização;
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aumento da produtividade;
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redução de afastamentos e custos com saúde;
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melhoria da inovação e da sustentabilidade organizacional.
Nesse sentido, cuidar da saúde mental no trabalho deixa de ser apenas uma obrigação legal e passa a ser uma estratégia para fortalecer a competitividade e a sustentabilidade das organizações.
Considerações finais
A inclusão dos riscos psicossociais na gestão de segurança e saúde ocupacional representa uma evolução importante nas práticas de prevenção no trabalho. A atualização da NR 01, aliada às diretrizes da ISO 45003 e à abordagem estruturada da ISO 31000, reforçam a necessidade de integrar a saúde mental ao processo de gestão de riscos.
Para os profissionais de SST, é importante ampliar o olhar sobre o ambiente de trabalho, considerando não apenas fatores físicos, mas também aspectos organizacionais e sociais que influenciam o bem-estar dos trabalhadores.
Mais do que uma exigência normativa, a gestão dos riscos psicossociais representa uma oportunidade para construir ambientes de trabalho mais saudáveis, produtivos e sustentáveis.
A ISO 45003 no Brasil
A versão em português da norma deverá ser publicada pela ABNT no final deste mês ou no início de abril. Para os nossos leitores terem uma ideia preliminar do documento, apresentamos a seguir a pré-visualização da futura NBR ISO 45003:2026.
